O Nosso T2, por Tânia Ribas de Oliveira

O seu filho é hiperativo? Ponha-o a mexer o corpo!

“Parece que tem bicho carpinteiro”, “tem pilhas duracell”, “anda sempre no mundo da lua”, “parece que nem me ouve”, “muda de tarefa constantemente”, “é desorganizado”, “não sabe onde deixou as coisas”, “age sem pensar”… Já todos ouvimos estes comentários que descrevem algumas das dificuldades de crianças com Perturbação de Hiperatividade e Défice e Atenção (PHDA). É uma perturbação neurocomportamental que manifesta os primeiros sinais desde tenra idade, caracterizada por um conjunto de sintomas persistentes de falta de atenção, excesso de atividade motora e/ou impulsividade. Manifesta impacto negativo nas várias áreas de vida (escolar, familiar e social) da criança e nas dinâmicas familiares.

Atualmente o processo de intervenção na PHDA pode englobar diferentes tipos de abordagens. As mais conhecidas são a intervenção farmacológica (tratamento medicamentoso), intervenção psicoterapêutica (psicologia cognitivo-comportamental, Mindfulness e Neurofeedback) e intervenção psicossocial (treino de competências parentais, programas de intervenção na escola).

Adicionalmente, há uma opção complementar de tratamento barata, auto-prescrita e acessível para crianças e adultos com PHDA que muitas famílias não tem conhecimento. Sabia que, ao longo dos anos, têm-se verificado um aumento de evidência científica sobre o efeito positivo do exercício físico e a PHDA?

Enquanto a maioria das pessoas encara o exercício físico como uma maneira de manter a forma e diminuir o stress, o que a investigação tem indicado é que a atividade física rotineira fortalece o cérebro. As crianças que têm na sua rotina a prática de atividade física regular demonstraram melhor desempenho cognitivo e saúde cerebral. Especificamente em crianças com PHDA em idade escolar, um estudo concluiu que apenas 26 minutos contínuos de atividade física diária, moderada a vigorosa, durante 8 semanas, reduziram os sintomas.

Adicionalmente, o desempenho académico também pode melhorar. Num estudo no qual se analisou o efeito de um programa de 12 semanas de exercício físico em crianças com PHDA, os alunos melhoraram a matemática e na leitura (áreas associadas ao funcionamento executivo). O exercício físico melhora o foco mental e controlo executivo, que consiste na resistência à distração e manutenção do foco, bem como a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva. Trocado por miúdos, significa que contribui para que as crianças sejam menos impulsivas e mais focadas, o que as torna mais preparadas para aprender.

 

Deste modo, John Ratey, um professor associado de Psiquiatria em Harvard Medical School, sugere que as pessoas encarem o exercício físico como medicação natural para PHDA. Mas como é que estes benefícios ocorrem? Quando o corpo anda, corre, dança, atira a bola, etc., o seu cérebro liberta várias substâncias químicas importantes, elevando os níveis de endorfinas. Quando os níveis destas substâncias químicas cerebrais se elevam, há um aumento da capacidade do sistema de atenção de ser regular e consistente, bem como uma redução do desejo de novos estímulos e um aumento do estado de alerta, o que é particularmente útil para as pessoas que sofrem de PHDA.

Infelizmente, nos currículos escolares, a atividade física tem frequência e carga horária reduzida. Por isso, seria aconselhável que os pais proporcionassem mais oportunidades de atividade física para os seus filhos. Praticá-la com amigos ou familiares, tornará os momentos ainda mais divertidos!

 

Raquel Carvalho

Psicóloga Clínica

Equipa Mindkiddo – Oficina de Psicologia