O Nosso T2, por Tânia Ribas de Oliveira

Espelho meu, espelho meu… Não vejo o que queria ver

Espelho meu, espelho meu…

Não vejo o que queria ver.

Anorexia Nervosa

A anorexia nervosa é uma perturbação do comportamento alimentar, uma doença, que vai muito além de uma “mania das dietas”. Presume-se um aumento de casos, nos últimos anos. Esse aumento poderá ter na sua origem diversas causas: ao acesso que os jovens têm a modelos de beleza, vincadamente baseados na magreza, veiculados pelos media; nas pressões académicas para o sucesso e para se ser o melhor. Este incremento poderá não corresponder a um efetivo aumento de casos, mas resultar de uma maior sensibilidade da sociedade para sinalizar este tipo de situações.

 

O que o espelho reflete é ou não a realidade?

De um modo geral, a anorexia caracteriza-se por uma sobrevalorização da importância do peso e da aparência corporal. Esta sobrevalorização expressa-se, na maior parte dos casos, pelo medo intenso de se ficar gordo, podendo mesmo haver uma distorção da imagem corporal. Simultaneamente, o índice de massa corporal (uma medida que correlaciona peso e altura) situa-se abaixo do esperado para o sexo e idade da pessoa. Identifica-se um controlo ativo do peso, através de restrições na ingestão de alimentos (quer pelo tipo, como pela qualidade/variedade de alimentos), através de exercício físico, através do recurso ao vómito… Nas raparigas pode coexistir amenorreia (ausência de menstruação). O medo intenso de engordar mantém-se mesmo quando o peso já está abaixo do peso ajustado/recomendado para a sua faixa etária. Habitualmente esta perturbação tem início na adolescência ou início da vida adulta, embora possa surgir antes da adolescência.

 

Num clima em que a OMS alerta para as elevadas taxas de obesidade, particularmente da obesidade infantil, fruto do sedentarismo e de padrões alimentares desajustados, a anorexia expressa uma preocupação extremada com a questão do peso e da imagem que o espelho reflete, rondando a sua prevalência, na população portuguesa, os 0.3/0.4%. Olhando para esta percentagem, os dados não parecerem justificar grande alarme. No entanto, esta é a condição psiquiátrica com maior mortalidade associada e, mesmo quando o prognóstico não é tão reservado, as sequelas físicas e emocionais que advém de um quadro de anorexia são significativas.

 

O problema é só o peso?

Não, é muito mais além do peso. E por isso é tão preponderante o pilar do apoio psicoterapêutico individual e/ou familiar neste tipo de situações. Como fatores que despoletam a doença, ou como consequência da própria doença, pacientes com anorexia apresentam com frequência, simultaneamente à questão da restrição alimentar, um conjunto de outras características do ponto de vista do seu funcionamento psicológico que são alvo de grande atenção no tratamento. O isolamento social, assim como, sintomas depressivos, sintomas ansiosos e obsessivos, rigidez de pensamento, entre outros são características que tantas vezes coabitam no jovem que olha para o espelho e vê, em grande sofrimento, algo diferente do que ele reflete.

 

Perdeu muito peso de repente… É anorexia de certeza. Não necessariamente. É fundamental que haja uma avaliação, feita por uma equipa multidisciplinar, uma vez que outras causas médicas podem estar na origem da perda de peso. Ainda assim, e por muitas vezes o início da perturbação ser muito “silencioso e escondido” é útil que pais e educadores conheçam alguns sinais de alerta para que, quando necessário, seja feita uma sinalização atempada do caso.

 

Sinais de alerta

·      Significativa perda de peso ou má progressão ponderal, sem causa médica aparente

·      Atraso no desenvolvimento pubertário

·      Obsessão com a comida e o controlo de peso

·      Pesagens frequentes

·      Contar ou pesar cuidadosamente a comida

·      Restringir a ingestão de certo tipo de alimentos, iniciando-se habitualmente a restrição por alimentos mais calóricos ou “menos saudáveis”

·      Desculpas frequentes para não comer ou para comer isoladamente

·      Recurso a peças de roupa mais largas como forma de esconder o corpo

·      Comportamentos ritualizados à hora da refeição, como cortar alimentos em pedaços muito pequenos

·      Fazer exercício de forma excessiva

·      Uso de “distrações” para a fome (ex. pastilhas elásticas, bebidas light)

·      Achar-se sempre gordo

·      Atitude extremamente crítica em relação à forma e imagem corporal

·      Instabilidade emocional

·      Isolamento Social

·      Amenorreia, nas raparigas;

·      Uso de laxantes ou diuréticos:

·      Evitar a frequência de atividades sociais, principalmente quando envolvem refeições

·      Falta de energia, cansaço, dificuldade de concentração

·      …

Nota: A presença de sinais de alerta não configura um diagnóstico. Em todo o caso, a existência de vários sinais de alerta, que se prolongam no tempo, justifica a avaliação por um especialista.

 

Quanto mais cedo se intervir, melhor. Não vale a pena esperar por um “click”

Quanto mais “instalado” estiver um problema, mais difícil é tentar torná-lo mais flexível. Um dos passos críticos no tratamento de pessoas com perturbações do comportamento alimentar é o reconhecimento da existência de um problema, o mais cedo possível. Tentar “mudar” alguém que não vê a necessidade de mudar é um desafio frustrante. A motivação para o tratamento é muito importante para o processo. As perturbações do comportamento alimentar podem deixar marcas profundas no corpo e na mente pelo que não é razoável esperar que se resolvam por si próprias.

 

Mesmo quando não existe um diagnóstico definido, mas se identificam sinais de alerta ou focos de preocupação, é importante que a situação seja avaliada e que se inicie algum trabalho psicoterapêutico, considerando os sintomas identificados.

 

… Para que o espelho reflita a realidade e para que se aceite a realidade.

 

Inês Afonso Marques

Psicóloga Clínica

Coordenadora equipa infanto-juvenil

Oficina de Psicologia