O Nosso T2, por Tânia Ribas de Oliveira

Meu querido Pai

Pai. Querido. Meu. Pai. Nosso, mas primeiro meu. Sou a primeira filha do meu pai e depois veio o Kiko e, muito depois, o Miguel. O meu pai sempre foi gigante aos meus olhos e não era só pela sua altura. Sempre foi um homem alto, loiro, de olhos verde água, muito diferente dos pais das minhas amigas da escola. Perguntavam muitas vezes se ele era português e no Verão, na praia, falavam com ele em inglês muitas vezes. Sempre achei graça a isso de ter um pai grande e loiro. E com os olhos verde água. O meu pai tem a voz mais bonita do mundo e este é, provavelmente, o elogio de que mais gosta. Fez Rádio em Luanda e este meu gosto pelas palavras ditas e escritas, foi ele que mo emprestou… depois, fiquei com ele, porque nunca mais mo pediu de volta. De resto, a minha profissão é para o meu pai um imenso orgulho, uma espécie de continuação do seu próprio sonho interrompido pela guerra colonial, que o atirou para um país tão diferente daquele onde nasceu. Mas foi este o país que me viu nascer e crescer e é este o país que amamos. O meu pai tinha 21 anos quando eu nasci (e a minha mãe também). Eram outros tempos, pois eram… mas na essência eram a mesma coisa. As mãos do meu pai continuam a segurar as minhas com a mesma força, o abraço do meu pai continua a ser o porto de abrigo mais forte e a presença do meu pai não deixa ninguém indiferente. Eu cresci e o meu pai também. Hoje, é com ternura e tantas vezes com os olhos em lágrimas que assisto aos momentos de ternura e brincadeira com os meus filhos, seus netos. Quando estão juntos, perdem a noção do tempo e da idade. São todos pequeninos e até o meu pai fica pequenino quando jogam à bola ou colam cromos na caderneta. Depois fica grande outra vez quando lhes explica que quando era pequenino não havia televisão e o Tomás acha que ele só pode estar a brincar. O meu pai dava-me as mãos e rodopiávamos. Mas era tudo de um rodar tão alto que eu gritava muito de alegria e de medo, e pouco depois estava a pedir para rodopiarmos outra vez. Chamava-me patusca e eu não gostava nada, mas ele lá me explicava que era por eu ser cativante pela graça que tinha e pela expressividade. Projecto isso claramente agora nos meus filhos e a vida faz-me sentido.
O meu pai continua a ser grande, mas hoje não pode abraçar o seu pai. O pai do meu pai, meu querido e saudoso avô. Eu posso abraçar o meu pai e o pai dos meus filhos que é o meu grande amor. E, por causa disto tudo, vou dar um abraço ainda maior ao meu pai e dizer-lhe que às vezes ainda me sinto tonta de alegria, das voltas e voltas que dava no ar, presa às suas mãos e ao seu coração tão lindo.
Tânia Ribas de Oliveira

Nota: este texto está publicado na Tv Guia desta semana, que me desafiou a escrever uma carta ao meu pai.