O Nosso T2, por Tânia Ribas de Oliveira

Como os pais podem prevenir o consumo de álcool dos filhos

Por muito que os pais não gostem de pensar sobre o assunto, a verdade é que há a tendência crescente de os filhos experimentarem e abusarem do consumo do álcool em idades cada vez mais precoces. Portanto, é importante começar a discutir o assunto com os filhos desde crianças e continuar a falar sobre isso à medida que crescem. Uma comunicação aberta, honesta e apropriada à idade, hoje, prepara o cenário para que o seu filho o aborde mais tarde com outros problemas difíceis.

Investigadores da Universidade de Adelaide, na Austrália, realizaram um estudo com quase 3000 estudantes, com idades compreendidas entre os 12 e os 17 anos. Uma das principais conclusões do estudo foi a de que os pais têm mais influência nas decisões dos seus filhos adolescentes relativamente ao álcool, do que aquilo que os pais imaginam. Muito antes do seu filho ter uma oportunidade de beber álcool, os pais podem aumentar a probabilidade de que ele diga “não”. Eis algumas recomendações:

Eduque o seu filho sobre as consequências do consumo de álcool. Uma conversa ocasional sobre álcool e amigos podem ocorrer na mesa de jantar: “Tenho lido sobre crianças e jovens que bebem álcool. Já ouviste falar sobre isso na tua escola?”.

Apenas uma minoria tem consciência dos efeitos nocivos do álcool na infância e adolescência. Pode afectar o desenvolvimento do cérebro, acarretando consequências diretas a nível do sistema nervoso central, com défices cognitivos e de memória, limitações a nível da aprendizagem. O álcool interfere com a percepção da pessoa sobre a realidade e a capacidade de tomar boas decisões. Isso pode ser particularmente perigoso para crianças e adolescentes que têm menos experiência na resolução de problemas e tomada de decisões. Os efeitos a curto prazo do consumo de álcool incluem: visão, audição e coordenação distorcida; percepções e emoções alteradas; bom senso e julgamento prejudicado, o que pode levar a acidentes, afogamentos e outros comportamentos de risco, como sexo inseguro e uso de drogas; ressacas. Os efeitos a longo prazo incluem: cirrose e cancro de fígado; graves deficiências vitamínicas; doenças do estômago; dano do coração e do sistema nervoso central; perda de memória; um risco aumentado de impotência.

Seja um bom modelo. Modere o consumo de álcool em festas e outros eventos sociais para mostrar ao seu filho que não precisa beber para se divertir.

– Muitos pais acreditam que permitir que os filhos consumam álcool num ambiente familiar ensina-os a beber de forma responsável. Contudo, a investigação sugere que aumenta o consumo.

Estabeleça os limites e crie expectativas claras sobre o comportamento responsável. A investigação concluiu que os estudantes, em todas as idades, tinham menos probabilidade de beber se os pais mostrassem desaprovação acerca da ingestão de bebidas alcoólicas antes da idade permitida por lei. Por isso, não compre álcool para os adolescentes nem o disponibilize nas festas.

Evite sermões e ameaças excessivas e, em vez disso, enfatize a consciencialização dos perigos, o seu amor e preocupação. Os adolescentes são mais propensos ao envolvimento em comportamentos de risco e a sua crescente necessidade de independência pode contribuir para que desafiem as instruções dos pais. Porém, se o seu filho não se sentir criticado constantemente, e se sentir aceite e respeitado como indivíduo, a probabilidade disso acontecer será menor.

Ensine ao seu filho várias abordagens para lidar com ofertas de álcool, incentivando-o a fazer perguntas. Se uma bebida lhe for oferecida, deve perguntar: “O que é isso?”, “Onde a arranjaste?”. Ensine-os a dizer “não, obrigado” quando a bebida oferecida é alcoólica.

– Lembre-o para abandonar qualquer situação desconfortável e ensine-o a nunca aceitar boleia de alguém que tenha bebido. Ofereça-se para o ir buscar a qualquer hora, e se combinar não lhe fazer demasiadas perguntas, isso ajudará a incentivá-lo a ser honesto e a ligar quando precisar de ajuda.

– Ensine o seu filho que, mesmo quando a vida é perturbadora ou stressante, beber álcool como uma fuga pode fazer uma situação difícil ficar muito pior. As crianças e adolescentes que têm dificuldades de auto-controlo ou baixa auto-estima são mais propensas a abusar do álcool e os períodos de mudança (o início da puberdade ou o divórcio dos pais) podem ser fatores de risco para o seu consumo.

Felizmente, os pais podem fazer muito para proteger seus filhos e prevenir os consumos precoces. É importante ficar atento, manter a comunicação aberta e as expectativas razoáveis. Ensine ao seu filho que a liberdade só vem com responsabilidade – uma lição que deve durar toda a vida.

 

Raquel Carvalho

Psicóloga Clínica

Equipa Mindkiddo – Oficina de Psicologia