O Nosso T2, por Tânia Ribas de Oliveira

A perda aos olhos das crianças

São várias as imagens, os vídeos, as notícias que todos os dias nos preenchem a vista e nos fazem pensar e repensar a nossa vida e o sentido que lhe damos. A noção de sofrimento é constantemente transmitida através da internet e da televisão e chega-nos de forma descontrolada e permanente. Sofrimento esse que não nos diz respeito, que parece estar até bastante afastado de nós e das nossas famílias, exactamente por pertencer a desconhecidos, mas que não nos deixa indiferentes e nos comove em muitas situações, tal como no caso recente dos incêndios e do cenário trágico por estes provocado.

De facto este é um exemplo de uma situação que gera diversas perdas, nomeadamente materiais e humanas e que nos desestabiliza enquanto cidadãos e enquanto pais, sem saber muitas vezes como abordar o assunto com os nossos filhos. Também eles se inquietam e deixam impressionar e é natural que nos questionem e partilhem emoções relativamente ao que ouvem e vêem, ou às conversas que têm com pessoas da sua idade. A noção de perda para uma criança é bastante variável em função de diversos factores, nomeadamente a idade, o desenvolvimento cognitivo ou o contexto familiar e cultural e é influenciada pelo modo como os adultos a abordam e aprofundam. Compreender a perda é ter consciência de que determinada pessoa ou objecto já não irá voltar a estar perto de nós; que uma casa que fica destruída pode ser recuperada mas não com tudo o que lá estava dentro ou que alguém que fica gravemente ferido deixa de estar saudável.

Falar de morte é complicado para muitos pais e educadores. Muitas vezes, na tentativa de protegerem os filhos, acabam por evitar o tema ou introduzi-lo de forma pouco natural, o que dificulta a percepção desta realidade por parte dos mais pequenos. De facto é importante que a criança vá interiorizando este conceito, vá percebendo que este faz parte da vida e que muitas vezes acontece de uma forma imprevisível e chocante, sem que haja controlo.

Ao longo da infância as crianças vão alterando a sua concepção de morte. Na idade pré-escolar (3-5 anos) associam-na a um momento de grande tristeza, visto ser uma emoção transmitida pelos adultos. Ainda não têm capacidade para compreender a morte como algo que não tem retorno, que é irreversível e por isso acreditam que a pessoa poderá “voltar a acordar”, por exemplo. Esta ideia é por vezes intensificada pelos filmes ou desenhos animados que a criança vê, onde é possível existir vida depois da morte. Entre os seis e os nove anos, a criança começa a entender que a morte é definitiva, sem grande noção de que lhe poderá acontecer ou a pessoas significativas. A partir daí é capaz de interiorizar este acontecimento como algo transversal a qualquer pessoa e comum a todos. Uma vez consciente desta possibilidade, a criança consegue com maior facilidade inverter os papéis e imaginar-se na situação de quem sofreu algum tipo de perda, seja ela de que dimensão. E isso vai necessariamente gerar nela emoções e pensamentos que devem ser apoiados e suportados pelos adultos.

Portanto, deverá existir uma comunicação aberta e explícita dos acontecimentos, adequada à idade e à maturidade e baseada em factos verdadeiros. Tal ajuda a limitar as fantasias da criança e as angústias e inseguranças respectivas. Deverá também haver controlo sobre os conteúdos a que a criança está exposta, muitos deles bastante perturbadores e agressivos sobre os quais a criança poderá não ter capacidade de elaboração. E mais do que isso deverá haver a preocupação constante de acolher e validar os estados emocionais da criança, conferindo-lhe segurança e tranquilidade para lidar com temáticas sensíveis e dolorosas.

 

Mariana Santos Paiva