O Nosso T2, por Tânia Ribas de Oliveira

Três anos sem ti

Nem acredito que já passaram três anos desde que ouvi a tua voz pela última vez. Três anos desde o dia em que a tua alma subiu ao céu e o inundou de paz e generosidade. Três anos desde aquela última tarde em família, no hospital, em que voltaste a falar, a comer e a beber depois de tantos dias em sofrimento e em silêncio. Chamam-lhe “as melhoras da morte”, mas cá para mim são um sopro de vida. Um sopro sereno, como um respirar de peito aberto antes do último suspiro. Nesse dia, pus o teu relógio. Estava pousado na mesa de cabeceira e, enquanto descansavas, coloquei-o no meu pulso. Acordaste. “Não tiveste programa hoje?”. Olhei para ti e menti   “Não, hoje não…”. Olhaste para a televisão e lá estava o Zé Pedro, sozinho, no Agora Nós. O programa tinha estreado há 4 dias e eu preferi passar esse dia contigo.

“Tânia, o programa está em directo, porque é que não foste?”.

“Porque quero estar ao pé de ti…”

“Está bem, então dá-me o meu relógio, sim? Não sei porque mo tiraram. Não sei viver sem relógio.”

Sorri, tirei-o do meu pulso e pus no teu. E encostei a testa ao teu braço. E não sei quanto tempo ali fiquei, com o nó na garganta que tenho agora, exactamente o mesmo.

Nesse dia, estávamos todos menos tristes. Pediste almoço, bebeste um copo de vinho e riste outra vez. Tiveste os filhos, os netos, os sobrinhos e a tua mulher sempre por perto. Fizemos um brinde. Deus sabe o que faz, não sabe Avôzinho? E tu também sabias, eu sei que sabias, que aquele dia seria assim: igual a tantos outros das nossas vidas, mas o último. O último.

Despedi-me de ti perto das 20h. Estavas cansado, ías dormir. Dei-te um beijinho, fiz-te uma festinha no cabelo. Daquelas festinhas que transbordam carinho, iguais às tantas que me fizeste vida fora, vida dentro, no cabelo e nas mãos. “Até amanhã, Avôzinho. Adoro-te.” Não tiveste força para me responder, mas do teu olhar não me livro. Desse teu olhar derradeiro de Amor puro e transparente. Olhos nos olhos. “Adoro-te.” E saí. A avó ficou com o Tó. Foi quase preciso arrancá-la de ao pé de ti nesse dia. Já estavas internado há mais de um mês mas, nesse dia, a Avó queria ter ficado. Mais ainda do que nos outros dias.

Eram 22h30 quando me ligou a dra Isabel. Olhei para o ecrã do meu telemóvel e, mal vi o nome dela, o meu coração gelou. A tua alma tinha partido durante o teu sono, como pediste em vida. Nem sei o que senti. Passaram três anos e continuo sem saber o que fiz ao barco, que ficou à deriva sem ti. Peguei no carro e fui ao hospital, estava o teu corpo deitado na cama onde te tinha deixado duas horas antes a sorrir com o olhar. Mas tu já não estavas ali. Era o teu corpo, sim. Mas não eras tu. A tua alma estava a caminho do céu, onde sei que estas agora em profunda tranquilidade. Chorei muito a caminho de casa. Chorei muito nos dias que se seguiram. Choro muito de vez em quando, mal o meu coração e as minhas memórias pousam em ti e na infância extraordinariamente feliz que me ajudaste a ter. Serás sempre o meu homem perfeito, na imperfeição dos dias e da vida. Transformei a falta que me fazes numa borboleta. Transformei a saudade em borboletas brancas. Sempre que passa uma, eu sei que estás comigo. Não será a vida assim mesmo, Avô? Leve e encantadora, dependente das asas dos nossos sonhos e do amor que pomos em cada coisa? Acredito que sim.

Três anos e tanta saudade.

Adoro-te.

Um beijo da tua neta,

Tânia.

PS- também não sei viver sem relógio. E, o teu, voltou para o meu pulso no final desse dia.

Tânia Ribas de Oliveira