O Nosso T2, por Tânia Ribas de Oliveira

Tempo de luto

Decidimos ir passar o fim-de-semana do meu aniversário fora. Fomos no sábado, voltámos na segunda-feira. Soube da tragédia dos incêndios à meia-noite, quando comecei a receber chamadas de parabéns.

Estávamos num bonito turismo rural na costa alentejana, no meio de um pinhal, numa noite que escaldava em todo o país. Os quatro no mesmo quarto e só se ouvia o silêncio da noite, de uma noite cujo silêncio era ensurdecedor. Ainda não havia histórias concretas, mas estar ali deu-me medo. Todos dormiram, menos eu. Podíamos ter sido nós, caramba. Podia ter sido qualquer um de nós.

Fiz anos no domingo e o dia foi cheio de amor, de abraços e de beijos, de tantas e tantas mensagens e declarações de amizade e de luz. O meu coração a sentir-se cheio de sorte e a minha razão a dizer-me que a vida é, de facto, um fósforo. Que tudo está bem num minuto e tudo se pode perder no minuto seguinte.

De todas as histórias por apurar, uma marcou-me logo. Tinha desaparecido uma família, a família da Lígia, que eu não conheço mas que senti como minha. Um casal de férias em Castanheira de Pêra, com dois filhos de 4 e 2 anos (tal como eu, precisamente). A Lígia partilhou no facebook todas as aventuras desse sábado, toda a felicidade de estar com o marido e com os filhos, toda a paz de umas férias em família. Tal como eu, precisamente.

A tragédia foi ganhando alma, deixou de contar o número de mortos e passámos a conhecer as pessoas. Os rostos, as famílias, as idades, o que faziam, para onde iam, como tentaram fugir. Pessoas como nós, que acordaram num sábado de sol e morreram no mesmo sábado de cinza. Que foram felizes nesse dia, sem sonharem nem por um segundo sequer que seria o último. Que abraçaram os seus filhos, que entraram num carro depois de um dia de mergulhos. Que enfrentaram o inferno e morreram todos juntos, no meio do fogo.

Ontem viemos embora para casa. À saída da Zambujeira do Mar, distraídos, entrámos pelo interior e a estrada, sinuosa, destinava-nos 53 km pelo meio do pinhal até à localidade mais próxima. Estavam 38 graus e os nossos filhos tinham acabado de adormecer. Ficámos em silêncio nos primeiros km decidi falar: “vamos voltar para trás. Vamos pelo litoral”. Fizemos inversão de marcha, sem questionar nada. Os meus olhos estavam já cheios de lágrimas.

Noutro dia qualquer, nem teria pensado na possibilidade de um incêndio numa estrada cheia de árvores por todo o lado, sem saída possível, numa tarde abrasadora. Mas ontem não. É tempo de luto. Quando cheguei a Lisboa soube que a Lígia, o marido e os dois filhos tinham sido encontrados mortos dentro do carro. Eles e mais 60 pessoas nesta e noutras circunstâncias.

Há uma tristeza muito grande que paira no coração de todos. Sabemos e sentimos que poderíamos ter sido nós. Somos todos feitos da mesma matéria e dos mesmos sonhos. Do mesmo amor e da mesma finitude. Que Deus abençoe quem fica e abrace quem partiu neste sábado, sem saber ao acordar que seria o último dia da sua vida. Um abraço meu, com profunda tristeza, a todas as famílias que perderam quem mais amavam.

Tânia Ribas de Oliveira