O Nosso T2, por Tânia Ribas de Oliveira

Um corte no sofrimento

A auto-mutilação é para muitos pais e educadores um acto difícil de entender já que envolve a agressão directa ao próprio corpo. Quando é realizado não tem como principal intenção provocar o suicídio, pelo menos de uma forma consciente, mas sim aliviar o sofrimento psicológico com o qual está a ser insuportável lidar. É nos jovens que surge com maior frequência e poderá estar associado a determinadas perturbações de personalidade, de comportamento alimentar bem como a problemas emocionais.

A forma como um adolescente se auto-mutila é variável. De facto o modo mais comum é através de cortes (com giletes, vidro, facas) realizados nos braços, pulsos, pernas, abdómen ou coxas mas pode consistir também em esmurrar-se, bater em si próprio, furar-se com agulhas, tomar medicação, queimar-se, arrancar cabelos ou fazer feridas. É inevitável que todos estes comportamentos causem perplexidade e indignação a quem está fora da situação, mais ainda por muitas vezes deixarem marcas visíveis. Contudo uma das preocupações dos jovens que os praticam é justamente a de esconder e encontrar argumentos e explicações alternativas quando confrontados. Um comportamento de auto-mutilação independentemente de ter diferentes origens acarreta sempre consigo inúmeras emoções tais como a tristeza, a culpa, a angústia, o medo. Emoções essas que reflectem o modo como o adolescente se vê e vê o mundo que o rodeia, as quais não consegue expressar de forma saudável e adaptativa.

A auto-mutilação surge normalmente associada a uma auto-estima baixa e a dificuldades nas relações interpessoais, sendo que um dos principais sinais de que o adolescente não está bem é o de se afastar e se isolar. Ao demonstrar-se incapaz de verbalizar o que está a sentir encontra nos comportamentos autodestrutivos uma forma de autopunição, acreditando que merece sofrer. Normalmente são adolescentes com crenças muito negativas em relação à sua vida e ao seu futuro, com sentimentos de auto-competência muito baixos, com receios e preocupações quanto à aceitação social e sem expectativas ou objectivos. É comum estarem deprimidos e indiferentes ao que se passa à sua volta. A agressão surge então como uma forma de comunicação, uma tentativa de exteriorização do que sentem.

A dificuldade por parte da família, dos amigos e da comunidade em compreender o que se está a passar, em descobrir a existência e prática deste tipo de comportamentos, em conseguir dialogar e demonstrar à pessoa a necessidade de esta ser ajudada condiciona e atrasa, muitas vezes, o tratamento. Este é fundamental para que se descubra a origem do problema e se possa actuar não só perante o acto em si mas em toda a sintomatologia que a está por detrás. Tratar a auto-mutilação só é possível se forem conjugados vários elementos, nomeadamente se for realizado um acompanhamento psicoterapêutico, muitas vezes psiquiátrico também e envolvendo os contextos e pessoas significativas na vida do jovem. Importa que este tenha a oportunidade de conhecer, aprofundar e dar nome às suas emoções, tornando assim mais tolerável a sua dor. E que tenha um espaço para reflectir e disputar pensamentos e ideias, muitas delas desajustadas em relação a si próprio ou ao mundo. Importa que este se reorganize interiormente e compreenda o valor que a sua vida tem e o contributo que esta é para a vida dos outros. Importa que este volte a conseguir amar e sentir-se amado por quem gosta dele.

Mariana Santos Paiva

Psicóloga Clínica

Oficina de Psicologia