O Nosso T2, por Tânia Ribas de Oliveira

Será que os pais irritam os filhos?

Será que os pais irritam os filhos O Nosso T2

Sabemos que as crianças se irritam com facilidade e muitas vezes. E se lhe disser que os pais contribuem para tal? Estará a pensar: “o quê?! Eu não faço nada para irritar o meu filho, muito pelo contrário!”. É verdade, mas existem alguns comportamentos e reações por parte dos pais que costumam contribuir para o despoletar de emoções mais desagradáveis nas crianças, nomeadamente o sentimento de incompreensão, desvalorização, tristeza, que por vezes se manifestam através de irritação, amuos ou birras.

As crianças têm dificuldade em identificar especificamente o que estão a pensar e dar nome ao que sentem e como ainda não têm desenvolvidas todas as competências cognitivas e emocionais para um auto-controlo eficaz, parece que facilmente lhes “salta a tampa” quando algo não lhes agrada.

A queixa número um das crianças relaciona-se com o facto de os pais não lhe darem a atenção que desejam. Quantas vezes o seu filho já tentou explicar algo e o pai ou a mãe não lhe deram a atenção que ele exigia naquele momento? Quantas vezes já pediu para os pais brincarem com ele e a resposta foi “agora não posso”? Esta queixa é muito partilhada connosco em consultório e contrariamente ao que os pais pensam, a melhor prenda que as crianças desejam não é o brinquedo xpto, mas sim que os pais estejam presentes, com atenção plena no momento em que está com elas.

Seja pouco ou muito o tempo que passa com a criança, tente dedicar-lhe alguns momentos de qualidade, com genuíno interesse na brincadeira ou atividade que está a fazer com ela, sem interrupções para atender telefonemas ou responder a mensagens, ver notícias ou fazer tarefas laborais. Verá que a vossa relação ganhará com estes pequenos momentos de cumplicidade e diversão.

Outro motivo de desagrado por parte dos filhos e que lhes provoca emoções desagradáveis e intensas tem a ver com a tendência dos pais em assumir sempre o pior e não ouvirem o que elas têm para dizer. Vejamos um exemplo, quando os pais recebem um recado da professora ou se apercebem de uma algazarra no quarto, costumam imaginar sempre um cenário bem mais negro da situação. Os pais rapidamente ativam o modo sermão e focam-se tanto na mensagem que querem passar à criança, que nem lhe dão oportunidade de explicar a sua versão do acontecimento. Pior ainda, é quando os pais fazem julgamentos imediatos e tomam decisões de castigos sem sequer escutarem realmente a criança.

Quando deduzimos o pior motivo ou atitude da criança corremos o risco de ser injustos e estamos indiretamente a passar a mensagem de que o seu ponto de vista não é valorizado. Se lhe acontecesse assumirem o pior de si, não se sentiria frustrado ou irritado? Então imagine como se sentirá uma criança, ainda naturalmente imatura no mundo das emoções. Esta interioriza “não sou bom”, “não consigo fazer nada de jeito”, “a culpa é minha”, o que por sua vez terá impacto negativo na sua autoestima na infância e com consequências na idade adulta. Deste modo, numa próxima situação a criança tenderá a pensar que não valerá a pena esforçar-se para mudar uma atitude ou melhorar um comportamento desadequado, pois mesmo assim, o adulto assumirá o pior dela.

Numa situação problemática, dê oportunidades ao seu filho de partilhar a sua versão dos factos, os seus problemas, as suas emoções, os seus desejos… Escute-o atentamente, sem o interromper, sem assumir o pior, fazer julgamentos ou desvalorizar o que a criança sente. Assim, conseguirá avaliar melhor a gravidade da situação/problema, tomar decisões mais ponderadas e ajudar o seu filho a aprender algo com os erros. Deste modo, se a criança sente que os pais são compreensivos e justos sentirá menos impulso para omitir ou mentir. Além disso, irá sentir-se à vontade para recorrer ao adulto quando sentir alguma dificuldade e partilhará consigo as suas aventuras sem receio de ser julgado ou punido.

Posto isto, já sabe como pode evitar estas irritações extra da criança, que mais não são reflexo de outras emoções sentidas face a pequenas (grandes) atitudes dos adultos.

 

Raquel Carvalho
Psicóloga Clínica
Oficina de Psicologia