O Nosso T2, por Tânia Ribas de Oliveira

Comportamentos agressivos na infância: o cérebro explica!

Comportamentos agressivos na infancia fotografia O Nosso T2 Blog

 

Educar é um desafio. Não há muita novidade até aqui. Sabia que uma das principais dificuldades dos pais, muitas vezes relatadas na consulta de psicologia, está relacionada com os comportamentos de agressividade dos mais pequenos?

Sobretudo em crianças mais pequenas, são muito comuns alguns comportamentos de agressividade, sendo que muitas vezes verificam-se agressões não só em relação aos colegas, mas também em relação aos pais e/ou outros adultos. À primeira vista, pode parecer que o grande problema está no próprio comportamento agressivo. Contudo, o problema está na forma como tendemos a lidar com estes comportamentos e na dificuldade que sentimos em gerir estas situações.

Mas então quer dizer que os comportamentos agressivos das crianças pequenas são normais? Exatamente! Pode parecer estranho, mas não é! É tudo uma questão de maturação cerebral (que, obviamente, difere de crianças para adultos).

Daniel Siegel, um autor de referência na área da parentalidade, tem um modelo muito útil para explicar estas diferenças entre o cérebro de um adulto e o cérebro de uma criança: o Modelo Cérebro-Mão. Para o compreender, experimente fechar a sua mão, deixando o seu polegar coberto pelos restantes dedos. Este modelo representa uma metáfora do cérebro humano, onde o polegar representa o sistema límbico (ou seja, o nosso “cérebro emocional”, aquele que é responsável pelas emoções e pelo seu surgimento). Os restantes dedos representam o nosso córtex cerebral, que é muito mais complexo. Está associado ao pensamento, à racionalidade e é ele que torna possível a integração, estruturação e processamento das nossas emoções. Agora experimente abrir a mão, permanecendo apenas com o polegar em contacto com a palma da mão. É precisamente isto que acontece quando nos zangamos e estamos furiosos. O nosso sistema límbico fica por alguns instantes “desligado” do córtex cerebral e as emoções estão à flor da pele, sem que tenhamos a capacidade de processar a raiva intensa que estamos a experienciar o que, consequentemente, faz com que tenhamos um comportamento mais impulsivo e descontrolado. (A expressão “saltou-me a tampa” faz agora um sentido muito mais literal, verdade?).

Continuando a utilizar este modelo, o que acontece com crianças muito pequenas é que a mão está sempre aberta. Isto significa que o córtex cerebral nesta fase ainda não está suficientemente amadurecido para haver um processamento emocional daquilo que estão a sentir. Se pensarmos nesta capacidade que nós adultos possuímos (a de processar emoções), que as crianças ainda não têm, torna-se muito mais fácil enquadrar alguns comportamentos: os pontapés, o “Mãe/pai, odeio-te!”, “Não quero mais ser teu filho!”, entre outros.

Para que seja mais fácil lidar com estes comportamentos, deixo-lhe algumas sugestões:

  • Evite os rótulos: “O meu filho é mau”, “Ele é um terrorista”, “És impossível”. As emoções não nos definem. Elas são passageiras. Usar este tipo de expressões não só pode trazer consequências ao nível da autoestima, como irá também gerar mais frustração, o que irá acentuar os comportamentos agressivos (porque a capacidade de processar estas emoções continuará a estar lá; lembre-se disso).
  • Não se mostre magoada/o: é normal sentir-se magoado quando a criança diz que não gosta de si. Contudo, procure enquadrar o comportamento e lembrar-se de que sabe que isso não é verdade. É nesta altura que o seu filho precisa do seu amor incondicional. É nesta altura que lhe pode dizer “Sei que estás muito zangado neste momento e que é difícil para ti sentires-te assim. Mas quero que saibas que mesmo assim, a mãe/o pai continua a amar-te muito.” Lembre-se dos momentos em que também se exalta com a criança, em que acaba por ter atitudes que não queria ter: em nenhuma dessas alturas o amor pelos seus filhos esteve posto em causa, certo? Com eles, acontece o mesmo!
  • Seja empática/o: procure colocar-se no lugar da criança e ajudá-la a expressar a sua raiva. Se bateu num colega, procure ajudá-la a perceber que outras coisas poderia ter feito que não envolvessem bater.
  • Esteja atenta/o aos seus sentimentos/emoções: antes de lidar com as emoções da criança na situação, é importante que esteja atenta/o às suas próprias emoções na situação e que as procure processar e regular. Só assim conseguirá estar preparada/o para lidar com as emoções da criança.
  • Seja paciente: procure treinar a sua paciência nestas situações mais desafiantes. Procure enquadrar estes comportamentos mais impulsivos da criança como meramente desenvolvimentais. Contudo, isto não quer dizer que a violência seja válida. É importante estar atento aos comportamentos e reações do seu filho. Se observar que estes comportamentos são significativos quer do ponto de vista da frequência, como da intensidade com que ocorrem, poderão estar presentes outras questões emocionais que podem necessitar de apoio profissional.

Nunca se esqueça que ser criança exige muita paciência da nossa parte. Tudo o que é preciso é estar atento, disponível e ter sempre presente que cada criança tem o seu timing e que o desenvolvimento requer tempo, paciência. O ideal é aproveitar o processo e aproveitar cada etapa desenvolvimental ao máximo (incluindo os desafios).

 

 

Sandra Azevedo
Psicóloga Clínica
Oficina de Psicologia – Equipa Mindkiddo