O Nosso T2, por Tânia Ribas de Oliveira

Consulta pré-concecional… para que serve?

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Não é uma temática muito discutida e a maior parte das mulheres ainda não está desperta para esta necessidade. A verdade é que esta é uma consulta que deveria ser realizada quando o casal pensa em engravidar, sim, antes mesmo de engravidar! Na maior parte dos casos em Portugal, a vigilância da saúde reprodutiva baseia-se no controlo da fertilidade (ou seja, nos métodos para não engravidar), na vigilância da gravidez e mais tarde na vigilância ginecológica. A verdade é que deveríamos seguir mais atentamente a nossa saúde ginecológica e, considerando que a gravidez não é responsabilidade nem situação apenas da mulher, é importante conhecer a saúde do casal antes de tentar engravidar.

Atualmente a maior parte das mulheres empenha-se seria e compenetradamente a mudar ou melhorar os seus hábitos e estilos de vida aquando de uma gravidez, em prol de um maior sucesso da mesma, assim como no desenvolvimento de uma criança saudável. O que a grande maioria dos casais desconhece é que os meses pré conceção são também muito importantes e eles também influenciadores da saúde não só da mulher e do homem, como do bebé. Assim, este momento de vigilância de saúde, visa perscrutar a saúde do casal de modo a que se consiga intervir positivamente no decurso da gravidez e do desenvolvimento fetal.

A maior parte das gravidezes são descobertas nos primeiros 3meses de gravidez; no entanto, os estudos indicam que o período de maior sensibilidade no que respeita ao desenvolvimento do bebé é entre os 17 e os 56 dias após a fecundação (segundo a Direção Geral da Saúde). Assim, considerando o que referi acima, os cuidados maiores apenas terão início após a primeira consulta da gravidez, muitas vezes já depois deste “período crítico”.

Então o que se procura realizar ao certo nestas consultas? Acima de tudo, procuramos elaborar um levantamento de dados que nos permitam avaliar o risco de uma potencial gravidez quer para a grávida, quer para o futuro bebé. E assim teremos de abordar uma quantidade de temáticas:

Antecedentes de saúde

Conhecer o historial da mulher relativamente a doenças cardíacas, diabetes, hipertensão, doenças renais, infeções urinárias de repetição, doenças da tiróide, asma, depressão, epilepsia, doenças reumatoides… Todas estas necessitam de um controlo apertado antes e durante a gravidez, dado que podem afetar de modo significativo a saúde da mulher e da criança, ou até mesmo o próprio desfecho da gravidez. Por outro lado, algumas destas alterações de saúde são alvo de medicação que pode não ser completamente compatível com a gravidez, pelo que assim que o casal pretenda engravidar deverá realizar uma consulta para adaptação da medicação e eventual alteração da medicação para perceber qual a melhor altura para engravidar.

Também os antecedentes familiares poderá ser alvo de avaliação, no que concerne a estas doenças, dado o seu potencial hereditário. Por outro lado, é importante conhecer a incidência familiar de alterações genéticas hereditárias, como trissomias, hemoglobinopatias, doenças cardíacas congénitas ou do tubo neural…) Estas últimas são deveras importantes, dado que devem ser lavo de maior aconselhamento e esclarecimento relativo à probabilidade de ocorrência, assim como da compreensão dos prognósticos e alternativas de aconselhamento e conduta nestas situações.

Por outro lado, é importante conhecer o estado vacinal e de imunidade relativamente a algumas doenças, como a hepatite B, a rubéola e mais recentemente, a tosse convulsa. Das primeiras é avaliada a história vacinal, e realizada a vacinação, se indicado (assim como o tétano); na última, existe a recente indicação para a vacinação das grávidas para proteção do recém-nascido.

Também é importante a realização de análises para averiguação de potenciais anemias, assim como de doenças infeciosas que possam carecer de tratamento e seguimento antes e durante a gravidez. Neste aspeto é importante salientar que não é apenas a mulher que deve realizar as serologias, como também o homem, dado que as infeções, nomeadamente as sexualmente transmissíveis poderão condicionar alterações na conceção e gravidez, tal como poderão ser danosas para o bebé.

Ainda neste capítulo das imunidades é importante a averiguação relativa à toxoplasmose, para que se iniciem os cuidados relacionados com esta temática desde o início da gravidez.

Outra situação de extrema importância é a realização do Papanicolau, exame de rastreio do cancro do colo do útero, que em caso positivo é imperativa a sua resolução antes da gravidez.

É também importante conhecer a existência de quaisquer intercorrências cirúrgicas, anestésicas ou transfusionais anteriores.

História ginecológica e obstétrica

Perceber se existiu alguma situação ginecológica relevante (cirurgia ginecológica, alterações e ciclo menstrual – que podem também permitir conhecer e identificar melhor a melhora altura do mês para tentar engravidar – abortos anteriores ou alterações obstétricas, assim como partos anteriores). Utilização da pílula ou outros métodos contracetivos.

Estilos de vida

Um dos principais aspetos abordados é a alimentação, não só devido aos potenciais cuidados no equilíbrio alimentar, como por exemplo na necessidade de suplementação (por exemplo em casos de vegetarianismo), ou mesmo a suplementação com ácido fólico que idealmente deverá iniciar-se cerca de 2 meses antes da potencial conceção (por exemplo nos dois meses antes de deixar de tomar a pílula).

A avaliação do exercício físico realizado habitualmente e aquele que pode comportar eventual risco para a gravidez também é avaliado/abordado nesta consulta.

Consumo de substâncias aditivas, como o tabaco, o álcool e drogas devem ser alvo de atenção, já que os efeitos nocivos na gravidez e desenvolvimento do bebé (não só in útero, como no crescimento futuro) são extremamente importantes. Assim, abordar estes assuntos sensíveis com antecedência pode proporcionar estratégias diferentes de resolução de problemas, assim como evitar problemas dramáticos pré e pós concecionais (como a infertilidade, abortos de repetição, malformações, baixo peso ao nascer e nascimento prematuro, síndrome de abstinência… situações que podem advir de consumos elevados destas substâncias).

Como é fácil de perceber, é uma consulta que, pese embora pouco conhecida e divulgada, se torna extremamente complexa e que carrega em si própria uma importância enorme. O facto de os profissionais desta área depositarem nesta consulta um grande peso relaciona-se com o que está já esclarecido: algumas situações de gravidezes de risco podem ser identificadas com maior antecedência e daí advir uma maior vigilância mais precoce, o que pode contribuir para desfechos mais positivos das gravidezes, assim como do desenvolvimento infantil.