O Nosso T2, por Tânia Ribas de Oliveira

“Não te perdi, não te perderei nunca, Avôzinho…”

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Este será para sempre o dia em que te perdi as mãos e a voz. Não te perdi, não te perderei nunca, Avôzinho. Quando te vi pela primeira vez sem vida, não tremi nem solucei. Tu já não estavas ali, aquele era apenas o resto do corpo que o cancro te deixou porque a tua alma e o teu coração já estavam muito longe.

Odeio falar da tua morte porque penso em ti todos os dias, com vida. Dou por mim e vou ligar-te (o teu número com a tua fotografia continuam na minha lista de favoritos no telemóvel e isso não me faz confusão nenhuma). Emoldurei os teus óculos e estão em destaque na minha sala, através deles vais sabendo da nossa vida, sei que gostavas que te contasse todas as novidades e que esperavas sempre que respeitasse a tua opinião. Como se houvesse alguém no mundo que não se curvasse perante as tuas palavras. Como se o teu próprio silêncio não fosse tão revelador. O nosso amor, Avôzinho, não tinha (nem tem) conta nem medida.

Não tinha cobrança, nem amargura. E apesar de estarmos juntos com frequência, tinha tanta saudade… Sempre tive saudades tuas. Tu sabes disso. Despedia-me sempre em lágrimas, em avalanches interiores de emoção desregrada. Nunca soube bem porquê, desde pequenina! Bom, se calhar porque tinha medo. Medo do dia de hoje, há dois anos. Medo que esse dia chegasse e já não me atendesses mais o telefone, em que já não me abraçasses mais. Nunca. Mais.

Em dois anos, estes que passaram sem que cá estejas, ganhaste mais um bisneto. Eu sei que tu sabes, calma. O Tomás continua a ser aos teus olhos o “menino mais lindo do mundo” por ser meu filho e o Pedro seria, estou a ouvir-te, “o bébé mais lindo do mundo”. Dava agora tudo para ser pequenina outra vez e entrar com o Kiko no teu carro numa sexta-feira à noite para irmos para vossa casa. A avó já estaria à nossa espera com o jantar pronto, nós ainda passaríamos no videoclube para alugar filmes caso chovesse o fim de semana todo. Alugávamos sempre ou quase sempre os mesmos: o Rambo, o Rocky, o Howard e o Destino. Tu não te importavas nada, vias sempre connosco, na tua poltrona com a manta nos joelhos. E não, não eras velhinho! Nunca foste velhinho, Avô! Sempre atento e informado, cordial e atencioso.

Fazes-nos tanta falta, que nem sabes. A avó continua a amar-te da mesma forma! Eu sei que tu sabes, eu sei. E também sei que sabes que sou a neta mais orgulhosa deste mundo! Sinto as tuas mãos nas minhas mãos tantas vezes quando estou sentada no sofá. Orientas-me sempre para que nunca me perca e quando tenho dúvidas, fecho os olhos e lá vem a resposta. Lá vem ela, Avô! Chega sempre! Sinto-te presente nas nossas gargalhadas diárias e sei que partilhas comigo esta paz que só consigo sentir quando estamos juntos em família.

A carta vai longa, tens mais que fazer.

“Avô, se precisares de alguma coisa liga. Dá um beijinho à avó! Almoçamos na quinta feira? Combino com o Tó, sim. Não, o programa não mudou de hora, começa às 16h. Não ligues ao que diz no jornal, é às 16h…. Sim, ligo-te à noite para confirmar o almoço. Beijinho! Diz, avô.

“- Tânia, não deixes de ser nunca uma distribuidora de afectos. Encantadora.”

Nunca, Avô.

Nunca.

(Como é que já passaram dois anos?)