O Nosso T2, por Tânia Ribas de Oliveira

E o pai?

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Quando engravidamos todos os olhos e atenção se viram para a mulher. Será ela a ter os desconfortos da gravidez, é dentro do seu corpo que vai crescer e desenvolver-se, é ela que vai sentir os enjoos, mas também será ela a sentir os primeiros movimentos. Pode ser ela que vomita durante os primeiros meses, mas também será ela a receber todos os elogios de como a gravidez lhe assenta bem. Será a mulher a dormir mal de noite, mas será também ela que reconhecerá rapidamente o que acalma e o que o faz saltar (ainda mais) na sua barriga!!

E onde está o pai em todo este processo? No início provavelmente ainda a habituar-se apenas à ideia… E é compreensível que não esteja propriamente “em sintonia” com a mulher. Enquanto ela está já a sonhar com o quarto, as roupas, a sonhar com meninos ou meninas, o pai ainda está a tentar sobreviver às alterações de humor causadas pelas hormonas, das conversas deixadas a meio por causa do sono que teima em atacar a mulher grávida em qualquer momento e em qualquer lugar (especialmente a meio daquele filme que andam a tentar ver há tanto tempo!). Para eles, de fora, a gravidez no início apenas é palpável através de coisas menos confortáveis e ainda assim é algo muito abstrato para a qual ainda não consegue construir um significado.

Apenas quando a barriga começa a crescer é que se começa a preparar e a perceber que “isto vai mesmo acontecer”. E nesta fase muitos podem sentir-se com alguns “ciúmes”. Para eles a gravidez apenas começou e a mulher já vai num outro nível, o de sentir o bebé a mexer! Para além de que toda a gente se preocupa com a mulher, mas ninguém lhe pergunta o que está a sentir… Se está preparado, se está preocupado com as noites sem dormir ou com o orçamento familiar… Pode até estar a sentir-se frustrado por não conseguir ajudar a mulher com os vómitos ou sentir-se algo “à parte”. Não é algo que devamos julgar, nem tão pouco questionar! Cada homem reage de modo diferente e muitas vezes as mulheres estão tão entusiasmadas com a gravidez que não conseguem compreender como o entusiasmo do pai não é coincidente e poderá surgir alguma tensão decorrente desta assincronia.

É importante nesta fase incluir o pai na gravidez, muitas vezes poderá ser algo feito levando-o a todas as consultas, para que perceba o que se passa dentro do corpo da mulher. Todas as ecografias têm um efeito fantástico no que concerne ao conhecimento do bebé e ajuda a construir uma ideia mais real do seu desenvolvimento. Assim, as consultas e especialmente aquelas em que se realizam ecografias são os melhores momentos para o pai se “pôr a par” da evolução da gravidez!

Uma outra estratégia é ajudá-lo a conhecer o bebé! Se já sabe quando ele mexe mais, então “convide” o pai a senti-lo e demonstre a reação do bebé ao toque e voz dele: há uns que se aninham debaixo da mão do pai, outros que rápida e ativamente dão pontapés ou cotoveladas aos pais ou outros ainda que acalmam automaticamente ao sentir o toque do pai. Nestes os pais por vezes sentem-se desmotivados, pois acabam por não “sentir” o bebé. Em todo o caso, é importante transmitir ao pai que isto apenas acontece porque o bebé se sente tranquilo e seguro com o seu toque.
Até poderá ser um bom truque para ajudar a mãe a descansar nas noites em que o bebé se encontra mais irrequieto!
Por outro lado e se considerarmos uma ajuda para ambos os elementos do casal, a participação de ambos em momentos de preparação para a parentalidade poderá ser uma estratégia para que ambos compreendam e vivam em sincronia a sua gravidez, partilhando e desmistificando mitos e crenças e construindo o seu caminho na preparação deste tão importante papel nas suas vidas.

Durante o trabalho de parto e parto, é aceite que o pai, caso assim o pretendam, esteja presente em todo o percurso. Aqui é importante que o casal tenha chegado a consenso, quer à presença, quer ao papel que é esperado do pai, o de apoio, de ajuda ou apenas de observador. As expetativas de ambos podem não ser consonantes e a falar é que se entendem! A mãe pode estar à espera que o pai seja muito proactivo, mas tal só acontecerá se estiver preparado para o que o espera. Por outro lado, o pai pode não saber bem como ajudar ou até mesmo sentir-se assoberbado ou perdido nos cuidados à mulher.

Assim, falem do que a mulher necessita e/ou daquilo que o homem considera que poderá ser o seu papel, aquele em que se sinta confortável, pois de outro modo não conseguirá realmente ser um elemento positivo em todo este processo e mesmo as suas memórias não terão o cariz que se pretende. O papel do pai pode ser o de fotógrafo ou de participante e aquele que relembra à mulher o treino que fizeram na preparação para o parto, pode também ser quem aguenta os apertos que a mulher dá durante a contração. O que importa é que saibam o que contar um do outro, para que no momento não haja (muitas) surpresas. Querer ou não cortar o cordão umbilical é uma escolha feita a dois, se houver essa possibilidade, nunca podendo ser forçada.

Após o nascimento, a participação nos cuidados ao bebé também devem ser alvo de conversa prévia, durante a gravidez. Os receios devem ser partilhados e não deverão ser alvo de vergonha ou “pirraça”. Atualmente são muitos os homens que querem participar e por tal devemos dar-lhes essa oportunidade e permitir-lhes o ambiente ideal para tal!! Ninguém aprende sob pressão ou críticas constantes, por isso, nós mulheres temos de tentar diminuir ou eliminar as nossas críticas ou os “deixa estar que eu faço” de cada vez que os pais tentam mudar uma fralda ou acalmar o bebé, ou fazer massagens para o desconforto abdominal. Por mais torta que esteja a fralda, ou mal cantada a música de embalar ou trocada a história de adormecer, por mais insegura que seja a massagem, é imprescindível que os deixemos tentar… e errar, até acertarem tão bem ou até mesmo melhor do que nós! Somos as primeiras a queixarmo-nos de que estamos assoberbadas com trabalho e cuidados, mas também as primeiras a querer fazer tudo sozinhas!

Aprender e praticar durante a gravidez pode ser uma ajuda, mas apenas após a gravidez a real prática vai ser aperfeiçoada! Partilhem momentos, troquem elogios e eventualmente até podem rir-se juntos da fralda que ficou menos bem e que acabou numa roupa cheia de chichi ou cocós!! Em todo o caso, só se aprende fazendo e atualmente os nossos filhos podem bem ser os primeiros recém-nascidos com quem contactamos, o que faz com que estejamos muito pouco preparados para cuidar deles. As mulheres têm uma ligeira vantagem, porque regra geral brincaram com bonecos; aos rapazes não era propriamente incentivado este género de brincadeiras. Assim, já que estão em ligeira desvantagem, devemos ter estas situações em consideração.

Não só podem partilhar os cuidados da muda da fralda, do banho, de adormecer e acalmar, de confortar nas cólicas, como são as melhores pessoas para ajudar na amamentação, especialmente na questão emocional da amamentação! Se a mãe estiver apoiada e repousada, vai ser mais capaz de amamentar e as hormonas da amamentação estarão em maior quantidade, o que por sua vez influencia de modo positivo a produção do leite. Por outro lado, se estiverem ambos em sintonia, conseguem melhor contornar as “dicas” e as “ajudas”, ajudando a filtrar as que realmente ajudam e as que apenas atrapalham a amamentação.
Basicamente, o que quero sublinhar, é que com o pai formam uma equipa e que as equipas apenas funcionam se tiverem uma relação forte. Podem haver tempos menos fáceis, mas se fortalecerem a vossa relação, serão de certeza uma equipa com muito mais força! Por isso, o pai não deve ser visto como alguém “extra”, mas como um elemento igualitário da equipa!