O Nosso T2, por Tânia Ribas de Oliveira

Fora de controlo!

 

Fora de controlo!

As Perturbações de Oposição e Desafio nas crianças

A desobediência nas crianças e o seu mau comportamento é muitas vezes tema de conversa, tema de preocupação, tema de consulta psicológica. É um tema preocupante, que tem impacto na gestão escolar, familiar, na vida pessoal de cada elemento da família e no desenvolvimento da própria criança no presente e no futuro.

“Portar mal” e desobedecer é, no entanto, um requisito de ser criança e abre várias possibilidades de crescimento, resta-nos conseguir perceber quando falamos de um comportamento normativo e algo que pode ser a manifestação de um problema maior. Neste sentido, os dados apontam que cerca de 3% das crianças com problemas de comportamento mais difíceis pode desenvolver uma perturbação de comportamento de oposição que lhe trará consequências mais graves na sua aprendizagem, relacionamentos sociais e desenvolvimento pessoal. Esta é uma perturbação que começa a ser evidente logo nos primeiros anos pré-escolares e escolares e que quando não diagnosticada e sem intervenção eficaz, pode evoluir para perturbações de comportamento agressivo na adolescência e mais tarde uma entrada no mundo dos comportamentos anti-sociais.

Sabemos, porém, que a identificação atempada destas questões dá-nos uma maior possibilidade de alterar este percurso e ajudar esta criança a ser um adulto mais saudável.
Porém, não devemos generalizar, pois nem todo o mau comportamento é sinónimo de que existe uma perturbação de base, mas pais, familiares e professores podem estar atentos a alguns dos comportamentos que podem ser mais problemáticos e que quando acontecem com alguma frequência podem ser indicadores de que algo se passa.

Irritação frequente: Quando a criança fica facilmente irritada, grande parte do tempo com pequenas coisas, como ser contrariado, não fazerem algo como deseja, dizerem algo que ela interprete negativamente… É muito percetível por um temperamento frequentemente irritado e ressentido com as pessoas à sua volta.

Comportamentos desobedientes e de oposição: a criança recusa frequentemente cumprir regras ou pedidos que lhe são feitos pelos adultos mais próximos, acabando mesmo por discutir muitas vezes com estes. Por vezes é difícil para estas crianças admitirem um erro e passam rapidamente as culpas para outra pessoa. Para além disto, vemos facilmente comportamentos que manifestamente pretendem irritar os outros.

Comportamentos vingativos: Quando a criança guarda facilmente ressentimentos, punindo os outros, explodindo em momentos de violência ou mais tarde, fazendo algo deliberado para provocar a pessoa que a incomodou.

Gerar um impacto negativo nos outros: Estes comportamentos podem ser visíveis nos diversos contextos, como na família, escola e até com os colegas, vários dias da semana, podendo por vezes ser crianças mais rejeitadas pelos outros, devido aos seus comportamentos. Uma pista muito importante é também a dificuldade em se lidar com estas crianças, deixando muitas vezes os adultos irritados, com dificuldade em controlar esta irritação e em serem assertivos na forma como tentam controlar o seu comportamento.

Ver que uma criança apresenta este tipo de comportamento não deve, porém, levar-nos a vê-la como pequeno “diabinho”, pois este comportamento apesar de evidenciar alguns traços temperamentais de maior dificuldade na regulação emocional ou auto-tramquilização, expressa também uma sensação de instabilidade por parte desta criança. Um marcador claro de que as suas necessidades de segurança e proteção não estão a ser correspondidas.

Como “esponja” que absorve o mundo, a criança poderá absorver facilmente adversidades, instabilidade no seio familiar, dificuldade dos pais/professores em serem assertivos e isto pode ser manifestado em comportamentos de oposição para com os adultos, com os quais não se sente totalmente segura.

Não dizemos com isto que tem necessariamente que existir um clima de insegurança evidente em casa (apesar de situação de violência doméstica por exemplo, poderem ser um bom preditor destes comportamentos), mas esta criança não está a ter os devidos sinais de segurança e estabilidade.

Por isso, o primeiro passo para ajudar a normalizar o seu comportamento, passará exatamente pela alteração na forma como os adultos lidam com os comportamentos desadequados da criança, mantendo a firmeza e limites que ela precisa, mas também balançando com demonstrações de amor incondicional que esta precisa de sentir.

Só a simbiose destes dois poderá mostrar um caminho mais seguro para esta criança, onde conhece regres e reconhecimento por fazer o esforço de as cumprir, onde sente a liberdade em poder expressar-se e ao mesmo tempo o limite até onde pode ir.

Não podemos esquecer que as crianças não se expressam como nós, por isso estarmos atentos aos seus comportamentos poderá ser o principal ponto de partida para as ajudarmos no que elas precisam.

Inês Custódio

Psicóloga
Oficina de Psicologia